#AFavorita me surpreendeu

05/01/2009

Fonte: Divulgação
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A última novela que me fez ler os resumos da semana para saber o que aconteceria foi "América". Como era época de ensino médio, pobres professores aturando meus comentários com a colega Valquíria na sala de aula sobre o destino de Sol (Deborah Secco) e Tião (Murilo Benício). Depois, veio a belíssima "Belíssima" de Sílvio de Abreu. A trama de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) foi a novela que mais me envolveu nesta década. Substituindo os mistérios que cercavam a vida de Júlia (Glória Pires), eis que Manoel Carlos vem com "Páginas da vida" que começou muito bem, mas terminou sem história alguma, só com as caras e bocas da Regina Duarte vivendo sua terceira Helena. Gilberto Braga entrou na jogada com as gêmeas Paula e Taís (Alessandra Negrini) em "Paraíso tropical", novela que só se recuperou do meio pro fim. Uma nova promessa surgiu na sequência: Duas caras. A trama de Aguinaldo Silva, que contava o embate entre Ferraço (Dalton Vigh) e Juvenal Antena (Antônio Fagundes), melhorou mesmo com a mudança de personalidade de Sílvia (Alinne Moraes). Até esse ponto, sofreu com certa torcida de nariz. Nesse contexto, a nova aposta: João Emanuel Carneiro, autor das melhores tramas das sete da década. Seria tiro certo. Mas no início, a bala fez uma curva que não precisava.

Flora (Patrícia Pillar) ou Donatela (Cláudia Raia)? Quem está falando a verdade? A linguagem da novela foi inovada no início, deixando o público reflexivo sobre em quem se poderia acreditar. Dividindo a novela em três atos, o autor revelou numa terça-feira de agosto a verdade: Flora, com um rosto meigo e angelical, era a verdadeira vilã da história, enquanto Donatela passou a sofrer mais que a Marimar (Thalía). Nessa época, a novela se sustentava mais na história das protagonistas e as tramas paralelas eram praticamente esquecidas. Ninguém sequer lembrava que Zé Bob (Carmo Dalla Vecchia) tinha uma filha! Era o segundo ato da trama...

A partir do terceiro ato da novela, com o início das revelações de que Flora era a assassina, uma grata surpresa para a emissora: a audiência foi subindo. E foi subindo. Subindo. Indo. Foi alto. Teve picos de mais de cinquenta pontos. Ponto pro autor, que foi corajoso ao enganar metade do país que confiava na Flora e por estrear no seleto horário nobre com baixa audiência no início da novela.

E foi assim que "A favorita" me surpreendeu. Certa vez, eu escrevi aqui no blog que queria ver novela com história. Para mim, "A favorita" sustentava-se especialmente com violência. Eu sentia falta daquelas novelas em que, quando terminava o capítulo, vinha uma ansiedade pra descobrir o que aconteceria no próximo. Pois muito bem. "A favorita" começou com a pior audiência da história do horário nobre da Globo e se recuperou de uma forma inacreditável.

No terceiro ato, quando se iniciam as revelações, a novela passa a se reestruturar de tal forma que os núcleos secundários passaram a ser também o assunto nas conversas sobre a novela. Quando antes se falava somente em Flora e Donatela, passou a se falar na traição de Dedina (Helena Ranaldi), que rendeu o primeiro recorde de audiência (quando o prefeito arrastou a esposa pelas ruas de Triunfo). Passou a se falar sobre a relação de amizade entre Stela (Paula Burlamaqui) e Catarina (Lília Cabral), sendo que as duas histórias renderam até matérias para o "Fantástico", da mesma forma que a revelação da personalidade de Flora e a aterrorizante morte de Gonçalo (Mauro Mendonça) na reta final.

Outra trama paralela que chamou a atenção estava relacionada à corrupção e ao tráfico de armas, ilustrado pelo episódio da bala perdida que atingiu Alicia (Taís Araújo), personagem ficou aquém do esperado por estar creditada entre os protagonistas. Porém, o contrário também aconteceu: Cilene (Elizângela), Halley (Cauã Reymond), Manu (Emanuelli Araújo), Silveirinha (Ary Fontoura) e outros personagens adquiram uma função importante no desenrolar de "A favorita". Estes serão lembrados!

Com uma trilha sonora escolhida a dedo, tanto a nacional como a internacional, uma abertura criativa, cenas na Argentina (o rancho fundo bem pra lá do fim do mundo onde vivia a família Fontini) e fortes revelações na reta final, "A favorita" recuperou a audiência no momento em que a Record sofria com a falta de argumentos da segunda temporada de "Os mutantes".

Ao final de sua terceira novela, o autor de "Da cor do pecado" e "Cobras & lagartos" tem só que comemorar. Na primeira, uma protagonista negra e na segunda um anti-herói protagonista. Em sua primeira novela do horário nobre, duas protagonistas dúbias. João Emanuel Carneiro é sinônimo de mudança na estrutura das telenovelas. É sinônimo de sucesso. É, sem dúvida alguma, o autor da melhor novela desde "Belíssima". Ele merece continuar no horário nobre e já deve ir pensando na sua próxima novela. Nós merecemos!

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.