A novela certa no momento certo

04/05/2020

Fonte: Reprodução
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Receita de sucesso em teledramaturgia, obviamente, não existe. Mas há de se considerar que o contexto no qual uma história é apresentada deve se ligar à proposta da obra. Não vou tecer mil e uma razões para o sucesso das tramas que vou citar (elas foram um acerto em termos de direção e elenco em sua maioria). Apenas quero mostrar que os autores precisam se ligar cada vez mais no momento sócio-histórico em que emplacam suas histórias. Vamos lá?

Guerra dos sexos (1983): A novela fez sucesso por conta da temática, onde homens e mulheres passaram a competir no mercado de trabalho de uma forma mais igualitária. Era início dos anos 1980 e o tema bastante pertinente. Além disso, Sílvio de Abreu inseriu o chamado humor pastelão na novela, uma novidade que fez da trama um sucesso na década de 1980. Por ocasião do remake de 2012, a temática deveria ter sido atualizada. Passou despercebido. Mas a trama original marcou história, mudando a fórmula das novelas exibidas às 19h.

Que rei sou eu (1989): Para a crítica especializada, é tida como a melhor novela de Cassiano Gabus Mendes. Com uma trama atemporal e moderna ao mesmo tempo, parodiava a década de oitenta, com planos econômicos furados e todos os tipos de figuras representando nossos representantes. Antenado ao momento, o autor viu o horário das sete aprovar a inovação aliada ao contexto de nosso país.

Vale tudo (1988): Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères construíram uma forte crítica sobre honestidade versus corrupção. Com isso, fizeram de "Vale  tudo" uma trama genuinamente brasileira - uma das razões pelas quais o remake latino não fez sucesso. Atemporal, refletia  os valores de nossa sociedade. Por ocasião de suas reprises no Canal Viva, mostrou sua força e o porquê de seu texto estar ligado à nossa brasilidade.

Celebridade (2003): Mais uma vez, Gilberto Braga analisou um tema que estava em foco: as celebridades instantâneas. Todos querem seus quinze minutos de fama e temos aí o primo do vizinho do tio do Zezé di Camargo que faz de tudo pra tirar uma casquinha da fama dele. Lógico que esse exemplo é bobo, mas desde o início dos anos 2000, parece que as pessoas tinham a necessidade de mostrar aos outros que possuíam algum talento. Qual a melhor forma? Aparecendo e ganhando cliques, especialmente em site do tipo "Ego", que a Globo mantinha. Aliada a uma trama folhetinesca certeira, "Celebridade" cumpriu seu papel e é uma das melhores novelas da década passada, mas que se percebeu datada por ocasião da reprise.

Escrito nas estrelas (2010): Depois do estrago provocado por "Eterna magia", coube a Elizabeth Jhin mostrar que pesou demais a mão em sua primeira novela, redimindo-se em sua segunda empreitada solo. A temática espírita não estava desgastada e a novela veio contextualizada ao momento em que filmes baseados na obra de Chico Xavier estavam sendo produzidos. Foi uma trama correta num momento certo, roteirizada sem a necessidade de didatismos que permearam algumas das tramas posteriores da autora.

Avenida Brasil (2012): A ascensão da nova classe média e ritmo de seriado americano marcaram uma novela com tratamento de filme. O público comprou logo de cara a trama de João Emanuel Carneiro em 2012. Narrativa frenética, poucos personagens e um texto inteligente fisgaram até quem torcia o nariz para novelas. Folhetim dos mais tradicionais, mas com o foco numa vingança em detrimento a uma história de amor, a novela mostrou a cara do nosso país, sintetizada em seu título: uma grande avenida que temos a percorrer.

Cheias de charme (2012): A dupla de autores estreantes Filipe Miguez e Izabel de Oliveira fizeram o que o horário das sete pede: novela com humor e uma trama bem arquitetada, com início, meio e fim. Poderia ter sido mais do mesmo, se não fosse a inovação da linguagem, ao misturar o clássico folhetim de televisão com a modernidade da internet, onde as pessoas comentam os assuntos no imediatismo das redes sociais. Soma-se a utilização de recursos musicais que conquistaram o público. Resultado: louros e mais louros.

Qual outra novela fez sucesso ao contextualizar o momento de nosso país ao seu texto? Deixe a sugestão nos comentários para um novo post!

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.