#AVidaDaGente termina amanhã

03/03/2012

Foto: Renato Rocha Miranda/TV Globo
Foto: Renato Rocha Miranda/TV Globo

Não, nós não iremos todos morrer amanhã. É a novela das seis, "A vida da gente", que se despede às lágrimas. Literalmente. A trama de Lícia Manzo foi um deleite para os telespectadores mais exigentes. A novela tratou as novas relações familiares sem ser didática, mostrando que novela pode ir além de mocinhos e vilões.

Com personagens complexos e histórias densas, tornou-se angustiante para boa parte dos telespectadores ficar em frente a TV sem uma caixinha de lenços no final da tarde. Muitos desistiram por não simplesmente não aguentar os conflitos brilhantemente armados na trama psicológica abordada. O tempo da música de abertura foi talvez o personagem principal da história, o único capaz de organizar a vida das personagens e fazê-las questionar sem esperar a resposta para todas as perguntas.

Como apontado diversas vezes, as personagens femininas se sobressaíram na novela. Eva (Ana Beatriz Nogueira) e Vitória (Gisele Fróes) deram um show ao defender suas personagens. Não eram vilãs, mas pessoas realmente humanas. Ambas tiveram bons momentos, mas o destaque realmente foi as protagonistas Ana (Fernanda Vasconcellos) e Manu (Marjorie Estiano). Fernanda Vasconcellos poderia repetir facilmente a Nanda de "Páginas da vida", mas conseguiu construir uma personagem consistente. Já Marjorie Estiano se saiu melhor e defendeu sua Manu como dificilmente outra atriz de sua geração poderia.

Algumas cenas foram memoráveis. O encontro de Eva com Manu e Iná (Nicette Bruno) no hospital teve uma construção textual surpreendente. E o que dizer da lavação de roupa suja entre as irmãs nos últimos capítulos? Um show de interpretação de duas jovens atrizes, segurando os papéis com maestria. A novela foi mesmo da Manu porque, além dessa cena, tivemos em novembro um dos capítulos de novela mais lindos da história da nossa teledramaturgia. Foi aquele em que Manu e Rodrigo assumem que querem ficar juntos no dia do aniversário da Júlia (Jesuela Mouro). Em geral, os autores se preocupam com duas coisas: primeiro e último capítulos. Mas Lícia Manzo provou ser possível qualidade no decorrer dos capítulos, embora no início do ano uma leve "barriguinha" tenha dado as caras. Mas não vamos criticá-la: era justificável a verdadeira presença desse tempo tempo tempo tempo no folhetim... E junto com o tempo, mil e uma D.R.s.!

Outras personagens também se destacaram: Alice (Stephany Britto) foi bem, numa trama simples e que teve bons momentos: a busca por suas origens. Nanda (Maria Eduarda) teve as melhores tiradas no decorrer da novela. Seus conflitos e pontos de vista eram sensacionais. E a relação tumultuada de Dora (Malu Galli) e Marcos (Ângelo Antônio)? Como não sentir vontade de dar um empurrão no Marcos, dar uma sacudida no cara e exclamar como a Ana Maria Braga "acorda menino"? Sem falar na trama da inseminação artificial que deu um norte para Jonas (Paulo Betti) e Cristiane (Regiane Alves).

Mas nem tudo foram flores em "A vida da gente". Alguns personagens não tiveram função nenhuma e apareceram para nada. O nepotismo com Rafael Almeida é um exemplo disso. Miguel não fez nada, não precisava sequer existir. Quanto ao Liu de Marat Descartes... Quem??? Seu personagem tomou maior importância apenas quando morreu! E nosso amigo Francisco Cuoco entrou ressuscitando o rei do lixo Olavo da Silva de "Passione". Peninha. Além destes, tivemos a ressurreição do Pedro (Eriberto Leão) de "Insensato coração" na pele de Gabriel. E também deu as caras o Guilherme (Klebber Toledo) de "Morde & assopra", fazendo uma pontinha como João, um personagem que nem precisava.

No geral, o saldo foi positivo. Lícia Manzo deve emplacar outra trama porque nós merecemos. E de preferência com a mesma atmosfera que destoou do eixo Rio-São Paulo. Tá certo que a vida da gente é mais alegre, mas também não precisamos viver somente em função do princípio do prazer. Uma produção desse naipe se torna bissexta porque vai contra as novelas mastigadinhas que o grande público tanto gosta. Foi a possibilidade de uma dramaturgia reflexiva que encontramos na novela. Fica a dica!

E antes de concluir: E o chimarrão? E pior: chamar guri de moleque? E pior ainda: Vivemos num inverno eterno? Porto Alegre é um inferno no verão!

Mudando de assunto: Fui chamado para trabalhar como psicólogo na prefeitura de uma cidade de Santa Catarina. Diante dessa situação, vou postar quando for possível. Não sei exatamente como minha vida vai ser a partir de agora. Quando eu me organizar, volto a visitar os blogs amigos. E não deixem de acessar o nosso espaço!

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.