#DuplaIdentidade e a narrativa seriada nacional

22/07/2020

Fonte: Reprodução
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Comecei a assistir #DuplaIdentidade. A série tem assinatura de Glória Perez e traz Bruno Gagliasso como Edu, um serial killer procurado pela polícia. Quando não está na busca por suas vítimas, seu comportamento é exemplar e acima de qualquer suspeita. Os treze episódios da série foram exibidos na Globo entre setembro e dezembro de 2014, mas podem ser conferidos no #Globoplay.

Quando comecei a assistir, a minha ideia foi observar a construção na narrativa. Afinal, o Brasil sempre produziu séries, mas como as novelas sempre foram o produto de consumo mais tradicional, as produções dramáticas tiveram por muito tempo um espaço pequeno na grade da TV aberta. Assim, os telespectadores acabaram ligando nosso país à produção de séries cômicas e consumindo outras narrativas importadas, especialmente dos Estados Unidos. Nos últimos anos, porém, as emissoras e produtoras perceberam que era preciso investir no gênero. Neste sentido, a Globo recorreu a uma produção que atendesse a um público mais específico.

Logo nos primeiros episódios, algumas características de novela. A reiteração ressoa bem menos, é verdade, mas há explicações como "a polícia pensa que serial killer é coisa de americano" que gritam aos ouvidos. Outro ponto que me incomodou até o momento foi a interpretação de Gagliasso. Ele dá ao protagonista olhares que denunciam sua psicopatia. Algo que em novela é uma licença necessária, mas numa série remete a sobras no resultado final. O primeiro passo a ser considerado deveria ser a sutileza. Não é preciso acentuar as tintas de um roteiro que já tem a seu favor uma estética bastante arrojada. Caso contrário, o resultado pode soar não como um produto original, mas sim algo pouco inspirado.

Há seis anos, #DuplaIdentidade mostrou-se promissora e ficou na promessa de uma segunda temporada. Esse tempo já nos permite observar como evoluímos nesta seara. São várias as possibilidades de narrativas experimentadas, incluindo híbridos de séries que se assemelham a novelas. Eu situaria a obra de Glória Perez neste departamento. Da mesma forma que a autora, Aguinaldo Silva também quiz provar desse gostinho com "Lara com Z" (2011), mas neste caso o resultado foi catastrófico.

Ter autores de novelas conduzindo seriados é um trunfo no sentido da organização da narrativa, mas um problema porque eles não estão habituados com a lógica dos arcos e outras características próprias dos produtos. É problemático quando o vício das novelas se sobressai. Isto não significa, contudo, que não tenhamos nos aprimorado. Na Globo, "Sob pressão" (2017) e "Segunda chamada" (2019) estão aí. Além das produções globais, as plataformas de streaming também avançam na produção brasileira. Bom para o telespectador, que tem boas opções e ainda tem o privilégio de ver diante de seus olhos a evolução do produto seriado nacional.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.