Falando eticamente...

17/06/2013

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Esses dias eu estava assistindo pelo youtube um programa "Café Filosófico" da TV Cultura e lá estava a filósofa Viviane Mosé dizendo que "ser ético não é ser bonzinho. Ser ético é cuidar de si mesmo, é cuidar do outro que é o si mesmo." Eu concordo. No momento que cada um cuida do seu nariz, acaba por respeitar as próprias limitações e condições. Passa ainda a entender que o outro não é sua extensão e muito menos alguém incapaz de agir por si. Dessa forma, é possível discernir o que é bom para si e o que não é. Vejo a ética pela esfera do entendimento, pelas possibilidades de pensamentos e sua amplificação.

Vamos pensar em certas situações da novela "Amor à vida". Glauce (Leona Cavalli) é uma médica que alterou o prontuário e ainda pediu ajuda e cobertura para Perséfone (Fabiana Karla). O médico Lutero (Ary Fontoura) opera mesmo tendo problemas nas mãos e a enfermeira Joana (Bel Kutner) se ofereceu para contornar a situação se houvesse algum problema durante a cirurgia de Paloma (Paolla Oliveira). Só aqui temos duas situações de dilemas éticos que Walcyr Carrasco coloca na mesa. Talvez nem seja sua intenção. Poder ser que, dramaturgicamente, tenha sido a melhor saída para contar sua história. Mas já que tocou nesta temática tão cara, é necessário discutir com cuidado situações para entendê-las.

Da mesma forma que o autor propõe falar sobre questões que envolvem ética, alguns grupos reclamam da forma como o assunto é retratado. Postura e erros técnicos de profissionais que trabalham no Hospital San Magno estão em xeque, pois a realidade não está sendo retratada de maneira fidedigna. Ocorre, portanto, o mesmo que ao médico Felipe Barreto (Antônio Fagundes) da novela "O dono do mundo". Na época, a sua falta de ética irritou cirurgiões.

O que eu me questiono vai além da forma como determinados grupos da sociedade compreendem a ficção. Justamente quando a exceção da regra é retratada, todo mundo cai em cima e generaliza, como se os profissionais não seguissem preceitos éticos. Lembro de "Morde & assopra", quando fisioterapeutas promoveram um boicote na novela na novela através do facebook. Esses dias também aconteceu de uma amiga psicóloga, que faz especialização junto a profissionais do Serviço Social, comentar que seus colegas estavam furiosos com a forma como as Assistentes Sociais foram retratadas em "Salve Jorge" em razão da história do tráfico de Aisha (Dani Moreno).

Eu concordo que cada profissional tem de defender seus pontos de vistas, sua ética e deve lutar pelos direitos. Mas não acho que isso deve acontecer somente quando questões de falta de ética são expostas por um veículo de massa como a novela das nove. Ser ético e defender a profissão é ser um cidadão que denuncia irregularidades nos órgãos pertinentes e que toma cuidado para não reduzir o discurso a um momento específico por causa de uma determinada situação retratada numa novela. É preciso sim estar de olho na forma como a profissão é retratada, sem esquecer que ficção não é realidade. Quando a ficção passa dos limites de forma a comprometer a representação de determinados grupos profissionais, existem possibilidades para a correção do que está equivocado sem a completa racionalização da arte.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.