Flora ou Donatela? #AFavorita

25/05/2020

Foto: TV Globo/Gabriel França
Foto: TV Globo/Gabriel França

A paixão vai além do contato amoroso, físico ou sexual. É um arrebatamento que cega, uma pulsão que domina o ser humano, fazendo-o refém do que sente pelo outro. E o outro torna-se uma razão, uma fúria, um investimento, uma ilusão, um modelo, um abstrato de perfeição sem lógica alguma. E novela tem que ter paixão sob os mais variados aspectos: a paixão do autor pela escrita da trama, do público com a história e a paixão entre os personagens que protagonizam uma obra.

Na novela "A favorita", a paixão apresenta-se de uma maneira possessiva e desmedida. Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Cláudia Raia). Quem está falando a verdade? Fugindo do tradicional casal principal, a novela de 2008 quebrou paradigmas e tornou-se cult. Se na época de sua exibição a trama demorou um pouquinho para se equilibrar, dada a concorrência da Record com a sua saga de mutantes, hoje colhe louros e é reverenciada como um marco.

No livro "Autores - Histórias da teledramaturgia", João Emanuel Carneiro afirma que a forma como ele escolheu contar a história de "A favorita" fez com que alguns adorassem e outros odiassem. Acredito que esta percepção do autor seja datada. O livro foi lançado pouco tempo depois da exibição da novela. Tudo era ainda muito fresco e a contribuição da trama à teledramaturgia nacional precisaria de algum tempo para amadurecer. Com toda a repercussão que a exibição dos capítulos da novela no Globoplay causou, percebe-se que a novela ganhou deveras outro status.

Ainda no livro, o autor também fala que a questão do estereótipo foi importante para a escalação da dupla de protagonistas. O porte de Cláudia Raia e a meiguice de Patrícia Pillar foram fundamentais para que uma trama sobre ambiguidades gerasse sentimentos diversos no público. Este jogo também apareceu no trabalho posterior do autor, "Avenida Brasil", onde a marca das roupas claras e escuras eram o contraponto dos arquétipos personificados por Carminha (Adriana Esteves) e Nina/Rita (Débora Falabella).

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Passado o distanciamento necessário para analisar uma obra, é possível elencar alguns problemas em sua construção. A temática da diversidade poderia ter rendido uma discussão interessante. Na trama, além da história de Orlandinho (Iran Malfitano), havia a história de Catarina (Lília Cabral), amiga do verdureiro Vanderlei (Alexandre Nero), e que sofria violência doméstica. Neta final, ela aproximava-se de Stela (Paula Burlamaqui), dona de um restaurante na fictícia Triunfo, onde parte da trama se passava. Na época, houve certa expectativa sobre a possibilidade de as duas terminarem juntas. Talvez esta seja a mais lembrada das histórias paralelas, pois outras histórias pouco repercutiram. Quem lembra da presença de Cláudia Ohana, Deborah Secco, Helena Ranaldi, Giulia Gam e Taís Araújo na novela? A trama central era tão forte que tomou tudo para si. Chega um momento na novela que os núcleos paralelos eram exibidos no meio do capítulo. Flora e Donatela tomavam conta dos primeiros e últimos blocos. Uma paixão não só entre as duas irmãs de criação, mas do público com estas personagens.

Assistir "A favorita" com novos olhares vai ser uma experiência interessante. Além de ser um produto que inspirou novelas posteriores com a brincadeira de quem é bom e quem é mau, abre o catálogo do Globoplay que, a cada duas semanas, promete exibir um clássico. É a chance de quem não viveu os momentos de êxtase propiciados pelos plot twists da trama principal. O povo todo no twitter já está comentando. Quer ver a Flora reclamando do filme que durou três horas, do Picasso no lavabo, do Sabiá lá na gaiola que fez um buraquinho e voou voou, da aterrorizante morte de seu Gonçalo (Mauro Mendonça), uma revelação inesquecível num teatro lotado e, é claro, do "Beijinho doce"? Já pode aplaudir! Mais aplausos! O saldo de "A favorita" é mais do que positivo e por isso merece mais aplausos!

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.