#Kidding está no catálogo do Globoplay

01/07/2020

Fonte: Reprodução
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Como uma vida pode ser normal após uma fatalidade? Afinal, o que poderia definir esse "normal", se o mesmo não passa de uma abstração que procura estabelecer um equilíbrio justamente do que faz a vida ser vida, ou seja, as diferenças e os conflitos? Pois é justamente neste terreno arenoso que se situa a série #Kidding, lançada em setembro de 2018 e estrelada por Jim Carrey.

Engana-se quem pensa que a obra é uma comédia nonsense ao estilo que consagrou o ator na década de 1990. Esqueça o Ace Ventura, o Máscara, o mentiroso e tantos outros personagens que povoam nossa memória afetiva. Aqui, Jeff Piccirillo torna-se Jeff Pickles, um apresentador de programas infantis que precisa se reconstruir após a morte de um de seus filhos. Só esta premissa já é bastante forte. E a interpretação de Jim Carrey ultrapassa sua capacidade dramática, já comprovada em filmes como "Show de Truman" (1998), "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004) e "Número 23" (2007). Em #Kidding, ele apresenta uma incontestável maturidade, transmitida num olhar desesperançoso e melancólico.

Na primeira temporada, temos uma narrativa que causa certo estranhamento de início. Em razão de ser o momento da apresentação dos personagens e de suas funções, a proposta dos muitos devaneios e fantasias poderia ter esperado uns três episódios ou mesmo a segunda temporada, que já começa mais fluída. Com um episódio de Natal, os roteiristas abordam a instituição familiar idealizada e que silencia suas dores oriundas de uma tragédia. Nem sempre há tempo para se reencontrar. E mensagem da série é justamente essa: se não podemos voltar para construir um novo agora, como fazer desse agora algo novo?

É provável que muitos tenham um preconceito gratuito com Jim Carrey, julgando que o astro só se adapta a papéis cômicos. No entanto, a humanidade que o ator transmite em #Kidding permite a abordagem de assuntos pesados, como a perda e a ressignificação da vida. Em uma narrativa nem sempre linear, temos a presença do filho morto, os conflitos com o pai, as relações afetivas, os problemas de trabalho, os momentos que marcaram sua trajetória, os dilemas e as decisões equivocadas que levaram o personagem a uma condição de incompletude e questionamentos.

Apenas uma sugestão deste blogueiro: para melhor assimilação, não maratonem! A série é curta, tem duas temporadas, cada uma com dez episódios com cerca de trinta minutos. Mas ela é densa e não pode ser vista como um mero entretenimento, pois traz várias situações que nos fazem questionar a própria vida e a existência. Para quem se interessar, está disponível no Globoplay. #FicaADica

Laugh, and the world laughs with you; weep, and you weep alone... (Ella Wheeler Wilcox) 

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.