O legado #ExplodeCoração, que entra no Globoplay

22/06/2020

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Falar com uma pessoa nunca vista pessoalmente parecia ficção científica há 25 anos. Hoje em dia, posso dizer que grandes amigos convivem comigo através das redes sociais e que apesar de não os conhecer pessoalmente, tenho certeza de que se marcássemos um café, falaríamos por horas e horas sobre nossos assuntos em comum. Não quero entrar no mérito das bolhas em que vivemos, mas pensar em como na realidade de hoje, especialmente nesses tempos de pandemia do coronavírus, o trabalho, os estudos, a reunião entre amigos e até mesmo consultas com profissionais da saúde se faz de maneira remota. Refletir sobre isso é um leque de possibilidades. E em termos dramatúrgicos, a representação desta onda de realidade virtual propagada no final do século passado deu-se justamente numa das buscas universais do ser humano: a relação afetiva com o outro.

A novela #ExplodeCoração entra no catálogo do Globoplay após ter sua primeira reprise no Canal Viva no ano de 2018. É uma novela com a cara dos anos 1990. Celebrada por ser a primeira trama totalmente gravada no Projac, tem um apuro técnico que se sobressai se considerar produções anteriores. É um deleite observar os tons amarelos dos cenários, as cores berrantes quase fluorescentes de alguns acessórios, os cabelos curtos femininos, os aparelhos telefônicos fixos com um toque ensurdecedor e bastante genérico, celulares no melhor estilo "tijolão" e computadores de mesa que eram verdadeiros trambolhos. Uma imersão num passado não tão distante e que muitos dos jovens de hoje não tiveram contato.

A autora Glória Perez acreditava que o mundo seria impactado com a popularização da internet e as suas possibilidades de acessar conhecimento, visitar museus, ler livros e conversar com pessoas através do computador. Não estava totalmente errada, afinal hoje percebe-se que a democratização do acesso também promove muita desinformação. Mas tal constatação não tira o mérito da abordagem proposta.

Discutir novas possibilidades de relações é especialidade da autora. Glória Perez tem propriedade para tocar em assuntos caros e invisibilizados. Sua aproximação com o mundo cigano aconteceu quando ainda estava na TV Manchete, escrevendo a novela Carmem (1987). A partir da premissa da união de mundos opostos através da tecnologia, conduziu a narrativa sobre as diferenças entre o povo cigano e gadjes (não-cigano). Ao explorar a riqueza deste universo, destacando a culinária, a dança, as lendas e também o preconceito, sobressaiu-se o personagem Igor (Ricardo Macchi), criando-se a partir deste todo um arquétipo sobre personagens relevantes interpretados com certa limitação ou direcionamento equivocado.

A abertura de #ExplodeCoração dava o tom da narrativa, trazendo Ana Furtado na pele de uma belíssima cigana de vestido vermelho. Ao som de "Ibiza dance", instrumental do Roupa Nova, um rico empresário em um ambiente asséptico usa seu touchpad para fazer o download da dançarina. Para a vinheta, a equipe de Hans Donner gravou por cerca de cinco dias, entre cenas de estúdio e externas, conforme relato de Ana Furtado em matéria publicada por Thaís Meinicke para o Gshow em 29 de janeiro de 2018. Ela relembra que foi a última candidata, cujo teste foi realizado no último dia de seleção, e que precisou ficar imóvel por cerca de 40 minutos para a cena em que é transportada do acampamento para o mundo futurista. A coreografia da dança ficou sob a batuta de Caio Nunes, um dos responsáveis pelo laboratório de atores da Globo.

Capa da trilha sonora oficial
Capa da trilha sonora oficial

O incrível é observar que todo o aparato tecnológico que parecia distante em 1995 está mais do que ultrapassado. Uma possível reprise da novela no "Vale a pena ver de novo" no início dos anos 2000 já comprovaria a evolução. Seria a mesma sensação tida por ocasião das reprises de "Celebridade" (2003) ou "Belíssima" (2005), que mostravam tecnologia datada. E será a mesma sensação de assistir (se alguém tiver coragem) "Geração Brasil" daqui algum tempo.

#ExplodeCoração também foi responsável por um dos mais importantes merchandisings sociais da história da teledramaturgia: as mães da Cinelândia em busca de seus filhos desaparecidos. Na trama, a personagem Odaísa (Isadora Ribeiro) vive o drama do desaparecimento de Gugu (Luís Cláudio Júnior). Lamenta-se o Canal Viva não tenha aproveitado a reprise para pautar uma nova campanha. Outros temas abordados foram a questão de gênero a partir personagem Sarita Vitti (Floriano Peixoto), a moda vintage, representada pela reverência de Bebeto (Guilherme Karam) à década de 1950, e as implicâncias de Lucineide (Regina Dourado) com Odaísa (Isadora Ribeiro), vendo-a com desconfiança por ser mãe solteira e batalhando no dia a dia.

A novela traz pontos reflexivos nos diálogos. Numa cena por volta do capítulo vinte, Beth (Renée de Vielmond) conversa com Serginho (Rodrigo Santoro) sobre o quanto algumas pessoas precisam sentir-se apaixonadas para tomar a coragem de abrir mão de uma vida inteira na busca pelos seus sonhos, usando Dara (Tereza Seiblitz) como exemplo. Uma conversa banal, mas profunda sobre as relações humanas. Assim, os personagens foram construídos sem didatismo, para além do dualismo bem versus mal que ainda baliza muitos textos de novelas.

No elenco, destaca-se Maria Luísa Mendonça, que deu um show como Vera, a esposa de Júlio Falcão (Edson Celulari). Desde suas primeiras cenas em Tóquio, já era possível esperar que a personagem tivesse contornos acentuados de personalidade histriônica. Também o casal Lucineide e Salgadinho (Rogério Fróes), dupla hilária que se perpetuou no imaginário popular.

O fato de ter sido a substituta de #APróximaVítima" deve ter pesado para que #ExplodeCoração não seja uma das novelas mais lembradas, se comparada com clássicos como #RoqueSanteiro, #ValeTudo e #Tieta. No entanto, apresenta predicados que fazem dela uma obra bem escrita e que merece ser redescoberta. Afinal, como não ficar enamorado ao ouvir Donato & Estefano, presente na trilha? Só mesmo uma novela do quilate de #ExplodeCoração pra fazer o público se apaixonar dessa maneira...

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.