O pesadelo em que vivemos

01/06/2020

Fonte: Google
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Pesadelo talvez seja a palavra que defina muito do que estamos vendo e vivendo. É um pesadelo na questão mais urgente, que reflete o descaso com o sistema público de saúde e que implica na vida de quem depende do mesmo para assegurar atendimento e sobrevivência - além, é claro, da falta de reconhecimento aos profissionais de saúde, expostos nesta batalha que é a Pandemia da Covid-19. Um pesadelo a quem depende do giro da economia e precisa enfrentar dias de desassossego em casa, sem saber quando a situação entrará nos trilhos. Um pesadelo para quem observa os noticiários políticos e encontra nele as ressonâncias do que há de mais vil no ser humano. Neste caso, poderia até mesmo ser o combo do "pesadelo" e da "repugnância". Se houver uma palavra que defina por si só os dois significados, me avisem para ampliar o meu vocabulário e torná-lo mais rebuscado. São palavras difíceis que aparecem nas decisões judiciais que se tornam meramente palavras ditas ao acaso, sem nenhuma ação efetiva que transforme o pesadelo em que vivemos na esperança do sonho que já tivemos. Fechar os olhos e dormir para voltar para aquele sonho de antes não é a solução mais propícia neste momento. É preciso conviver com esse pesadelo, com esse descaso, com essa falta de estrutura sociopolítica a qual estamos imersos. Observamos os noticiários internacionais mostrando países que enfrentam a pandemia com seriedade, já apresentando curva decrescente de contágio. Há sim boas expectativas com testes de vacinas sendo anunciadas como uma possibilidade de prevenção à Covid-19. E onde nós estamos neste momento? Num caldeirão do caos institucionalizado, na busca por salvadores de uma pátria que nunca foi mãe de seu povo, mas sim o Senhor de Engenho que renega o filho bastardo que vive na edícula. Ou melhor, na senzala. Na periferia. Edícula é palavra rebuscada demais para quem hoje está no poder. Aliás, nunca foi uma edícula. Foi sempre o céu aberto, o barro, o lodo, o córrego onde o brasileiro mergulha e sai sorrindo porque não pega nada. E enquanto este discurso desumano manter-se naturalizado e notas de repúdio forem emitidas por aqueles que deveriam honrar o lugar que ocupam, estas serão recebidas com um sorriso debochado como faz aquele aluno que mostra pra mamãe e pro papai que tirou zero na prova de matemática, pega a bicicleta e sai por aí sentindo-se o dono do mundo. Isto tudo poderia ser só um pesadelo. Sim, nós poderíamos estar vivendo apenas num pesadelo. Mas vivemos numa realidade.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.