O pessoal andou cancelando #EstrelaGuia…

13/07/2020

Fonte: Reprodução
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A volta de #EstrelaGuia no #Globoplay causou mais uma onda de cancelamentos na internet. Na semana passada, a novela protagonizada por Sandy causou polêmica. Muitos comentários diziam que a obra fazia apologia à pedofilia, considerando o fio condutor da trama, onde a personagem Cristal (Sandy), de dezesseis anos na história, envolve-se com seu padrinho, Tony (Guilherme Fontes), já na casa dos quarenta.

Assisti aos primeiros capítulos da obra para pensar um pouco sobre o acontecido. E que fique claro: estou apenas pensando sobre o acontecido, sem que em nenhum momento a ideia desta postagem seja estabelecer certo ou errado. Logo no início, Tony é convidado por Bob (Guilherme Winter) e Kalinda (Maitê Proença) para ser o padrinho da filha Cristal. Num lugar bastante bonito, a menina, com provavelmente dois ou três anos, sorri para o padrinho. Mais tarde, Kalinda diz a Tony que o destino dos dois está traçado. E aqui atenção: em nenhum momento ela diz que eles terão um relacionamento amoroso. Nós, telespectadores, já pressupomos isso porque somos consumidores de teledramaturgia. Já temos um know-how de como as obras conduzem os relacionamentos amorosos e, geralmente, o primeiro capítulo marca o encontro entre o casal protagonista. Até aqui, ok.

Passam-se vários anos. Cristal é uma adolescente e o seu destino é reencontrar Tony, que mal lembra da existência da afilhada. Ela está de aniversário e ele pede para um de seus funcionários comprar um presente. O funcionário, sem saber a idade de Cristal, envia uma boneca para a jovem. Aqui inferimos que Tony parece se importar mais com seus problemas no Rio de Janeiro do que com a filha de seu melhor amigo. E passados quase dez capítulos da novela, ainda não aconteceu nenhum encontro entre o homem de cerca de quarenta anos com a jovem de dezesseis (interpretada por uma atriz de dezoito). A gente sabe que vai acontecer, mas ainda não aconteceu...

Vamos pensar agora de outra forma: a partir dos dezesseis anos, é possível a emancipação concedida pela Justiça da Infância e da Juventude. Nisto incide a possibilidade do casamento, que é uma das situações especiais para habilitar a pessoa à prática de todos os atos da vida civil, de acordo com o Art. 05 do Código Civil. Tentei ser racional neste ponto e se eu tiver falado bobagem, por favor, me avisem que eu faço a reparação e dou o crédito. Diante disto, Cristal e Tony poderiam, sei lá, se casar se houver consentimento? Não estou dando a resposta!

No que se refere especificamente na polêmica apologia à pedofilia que a novela estaria fazendo, quero trazer mais um ponto para a discussão considerando um CID F65.4. É neste item do Código Internacional de Doenças que há menção à pedofilia enquanto um transtorno. Vamos analisar bem a palavra: transtorno. Estamos falando em nível patológico, ou seja, de um sujeito que tem preferências sexuais com crianças e/ou adolescentes. Diante disto, o personagem Tony demonstrou a possibilidade deste transtorno? Não estou dando a resposta e não estou defendendo o personagem!

Num passado não muito distante, nossas avós e bisavós se casavam com doze, treze anos. Felizmente, as legislações avançaram - o que não significa que tal prática tenha sido abolida. Da mesma forma, avançou-se a compreensão sobre questões relacionadas à sexualidade humana. Isto significa que temos condições de pensar sobre temas caros como a pedofilia sem reduzi-lo à cultura do cancelamento, que tenta nos absorver cada vez mais na contemporaneidade. Contestar o que é apresentado numa produção audiovisual é válido e necessário, desde que se tenham argumentos para além de um boicote pelo boicote. Fica a pergunta: faz sentido o movimento do cancelamento na novela #EstrelaGuia?

A pedofilia existe sim e muito mais do que se pensa. A realidade é bem pesada e meu lugar de fala é com experiência profissional, pois faço vários atendimentos psicológicos de crianças que passaram por abuso. Eu jamais vou ser conivente com um crime! Espero que este texto seja lido e também relido se não tiver ficado clara a minha proposta de problematizar a questão quando falamos de recursos dramatúrgicos e enfatizar o meu posicionamento enquanto cidadão consciente sobre a temática. Em caso de violação de direitos, denuncie no Disque 100.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.