Ousadia e incompreensão #TorreDeBabel

03/08/2020

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Embora muitos critiquem a atual função de Sílvio de Abreu no departamento de teledramaturgia da Globo, é inegável que o autor sempre buscou surpreender o público enquanto roteirista. Este reconhecimento é necessário diante de seu currículo, com contribuições relevantes para as novelas. Entre elas, o humor que comumente marca o horário das 19h desde os anos 1980. Nos anos 1990, o autor permitiu-se o exercício de uma faceta difícil em teledramaturgia: o policial. Seu ponto máximo foi o thriller "A próxima vítima" (1995), onde houve equilíbrio entre o folhetim mais tradicional e a proposta ousada. Já em "Torre de Babel" (1998), seu trabalho seguinte, Sílvio de Abreu precisou reestruturar toda uma ideia inicial para melhor assimilação do grande público.

Atualmente disponível no Globoplay, "Torre de Babel" causou choque logo de cara, mostrando um Tony Ramos violento, o casal Glória Menezes e Tarcísio Meira em crise e uma Cláudia Raia extremamente fria e passional. Quem acompanha teledramaturgia sabe que o autor gosta de desenvolver seus personagens conhecendo previamente as características dos atores que irão interpretá-los, pois assim desafia as possibilidades de criação. Por isto, as escalações pouco convencionais causaram estranhamento numa proposta onde a ambiguidade estava impregnada não apenas no texto, mas também no imaginário do público diante dos atores, cujos papeis fugiam do lugar comum. Um jogo que atiça o noveleiro mais exigente, mas que pode afastar o mais tradicional.

Considerando a indústria da novela e uma emissora como a Rede Globo apostando alto num produto mais arrojado, o risco era grande. Na época, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, estava em seu auge. Ele deixara a Record rumo ao SBT e conquistava audiência com uma banalização da violência em tom popularesco. Embora muitos acusassem a novela da Globo de ser violenta, havia uma abordagem que poderia despertar reflexão. Afinal, era novidade ver um personagem como Guilherme (Marcello Antony), um rapaz rico, loiro e de olhos azuis, envolvendo-se com o mundo das drogas. Ou seja, a novela das oito de 1998 da Globo trazia violência explícita atingindo a alta sociedade, com direito a uso e abuso de drogas e assassinatos, fazendo a idealização do público sobre a vida mais abastada cair por terra. O SBT concorria com situações grotescas e também com violência, estando esta impregnada por tons muitas vezes humorísticos para chamar a atenção. A partir desta leitura, dá para refletir sobre as acusações de baixa audiência de "Torre de Babel". Considerá-la problemática pela violência excessiva é esquecer que o público transitava entre dois produtos que traziam  os mesmos temas caros à sociedade, mas cuja representação destoava.

Observando com distanciamento, percebe-se que o telespectador optou no início pelo tom mais popularesco em detrimento de uma narrativa que colocava questões estruturais sobre a violência urbana, que personalizada em Clementino (Tony Ramos) abria caminho para uma análise sobre a sua origem. Afinal, trata-se de uma personalidade, fruto do meio ou resposta a uma injustiça? E por que a comoção acontece quando um shopping explode matando centenas de pessoas enquanto diariamente milhares são dizimadas por um Estado negligente?

Foi difícil segurar o drama num tom sociológico sem um evento literalmente bombástico. Novela é a emoção que pode ser vista, que pode ser sentida, que causa envolvimento. Numa novela, dois namorados falarem o quanto se amam é diferente de uma demonstração através da ação. Combinar no roteiro a fala e a ação é uma carpintaria para poucos. Novela precisa de pontos catárticos e Sílvio de Abreu sabiamente antecipou a explosão do Shopping Tropical Tower, reorganizando sua trama e enveredando para o mais tradicional folhetim. Foi uma decisão sábia para não perder o público, mas abrir concessões pode significar uma traição com a ideia original. Personagens tornaram-se mais maniqueístas e no fim, "Torre de Babel" despediu-se como uma aposta ousada e marcada pela incompreensão. Uma trama que difere do texto mastigado e que pede que o telespectador reformule conceitos com os quais já está acostumado. Um exercício que é muitas vezes difícil, no qual o autor acabou recebendo como resposta uma rejeição e certo rótulo de fracasso. Na verdade, a trama foi incompreendida ao trazer camadas com as quais o público médio não estava habituado. E mais de vinte anos depois, parece ainda não estar.

Atualização: Como bem pontuado pelo amigo Fábio, o apresentador Ratinho ainda estava na Record na época da estreia de "Torre de Babel" e lá permaneceu durante os primeiros meses de exibição da novela com o programa "Ratinho Livre", cujo conteúdo do programa era semelhante à atração que comandaria no SBT. Portanto, não "deixara a Record rumo ao SBT", conforme escrito. Fica o registro. Grato pela observação!

Fonte da imagem: Reprodução. 

Para encerrar, fui pesquisar sobre a novela para escrever o texto e achei essa imagem da "Revista Contigo" de junho de 1998 que compartilho com vocês. Uma resposta do Alcides Nogueira a uma telespectadora. Convenhamos que deve ser bem complicado receber tiro, porrada e bomba de todos os lados quando um trabalho não agrada...

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Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.