Personagens femininas em obras de Eça de Queiroz (Parte 2)

27/05/2020

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Este texto está publicado em 3 partes. 

A obra "O crime do padre Amaro" foi escrita por Eça de Queiroz e publicada no Porto no ano de 1875. No livro, o autor afronta uma instituição muito forte em Portugal: a Igreja Católica, bastante presente no período de colonização. Os portugueses levavam as tradições católicas e impunham sua fé aos povos nativos. Neste sentido, a abordagem do celibato implicava em percorrer um terreno espinhoso. Em 2002, a história de Amaro e Amélia ganhou uma adaptação cinematográfica, dirigida pelo mexicano Carlos Carrera e contado com Gael García Bernal e Ana Cláudia Talancón no elenco. Três anos mais tarde, Carlos Coelho da Silva realizaria a versão portuguesa, protagonizada pelo português Jorge Corrula e Soraia Chaves.

No que se refere ao livro em si, evidencia-se um caráter de afronta à representação dos dogmas. A contradição está presente na narrativa tanto por parte do padre do título quanto pela presença de Amélia, personagem sobre a qual me proponho pensar. Conforme sua descrição, trata-se de uma "rapariga de vinte e três anos, bonita, forte, muito desejada" (QUEIROZ, 1998, p. 5) - talvez até mesmo pelo autor em terceira pessoa.

O padre Amaro, ao pé da janela, fumando, contemplava Amélia, enlevado naquela melodia sentimental e mórbida: o seu perfil fino, de encontro à luz, tinha uma linha luminosa; destacava harmoniosamente a curva do seu peito; e ele seguia as suas pálpebras de grandes pestanas, que do teclado para a música se erguiam e se abaixavam com um movimento doce. (QUEIROZ, 1998, p. 26)

Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviário; mas distraia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes podres de Artur, sobretudo o perfil de Amélia. Sentado à beira da cama, com o Breviário aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçozinho gracioso... (QUEIROZ, 1998, p. 27).

Estes fragmentos apontam para o momento em que o protagonista depara-se com questionamentos acerca de suas próprias verdades. Mesmo que no início da obra Eça de Queiroz tenha enfatizado um caráter mais "angelical" de Amélia, ela torna-se uma mulher "demoníaca", não por demonstrar maldade contra os outros, mas sim por ser capaz de destruir a fé de um homem. Fé esta que já nem parece ser tão forte assim. O leitor percebe que há uma atração e adentra à ambiguidade do título em relação à trama desenvolvida: o crime do padre Amaro é apaixonar-se ou ele cometerá, efetivamente, algum crime em razão deste desejo?

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Se para a instituição religiosa a gravidez antes do casamento é um pecado, para um padre é uma condenação. Amaro tem sentimentos confusos. Ele é capaz de admirar com desejo a imagem da Virgem, guardando para si o que considerava delírios que julgava afastar borrifando água benta pelo quarto. Seu dilema está mais próximo ao momento que vive, assombrado pelo desejo, do que à personalidade. No caso do padre, há ainda um crescente sentimento de raiva por João Eduardo, apaixonado por Amélia, capaz de utilizar-se do fato de seu desafeto ser ateu para impedir o casamento dela.

Já no caso de Amélia, as suas características de personalidade desenvolvem-se de tal forma que, em alguns momentos, é possível suspeitar sobre um transtorno afetivo bipolar, dada sua instabilidade, possessividade, ciúme e imaturidade para a idade da personagem, alternada por uma condição doce e delicada. Ela não parece esconder-se nestes sentimentos propositadamente, visto que esta dubiedade faz parte de sua personalidade.

O envolvimento com Amaro culmina numa gravidez. Esta gravidez, por sua vez, já é condenada pelos sacerdotes antes mesmo de sua descoberta.

Neste momento há só aqui na freguesia mais de doze raparigas solteiras grávidas! Pois senhores, se as chamo, se as repreendo, põem-se a fungar de riso! (QUEIROZ, 1998, p. 44).

Os próprios sacerdotes percebiam que a pregação não era suficiente para demonstrar o poderio da Igreja através do medo. Viviam o início de um declínio de poder. E a esta altura da trama, era compreensível ao leitor o posicionamento de condenação da gravidez de moças solteiras. Para Amélia e padre Amaro, esta situação torna-se insustentável, potencializando a inquietação da jovem e tendo como um dos desfechos a morte da personagem.

Com isto, Eça de Queiroz tece um painel de conflitos realistas, não só a partir de Amélia, mas da ambientação de sua obra, questionando a realidade burguesa da Portugal do século XIX. Foucault (1984) traz em "Microfísica do poder" uma série de discussões sobre como o hospital, a prisão, a justiça, a disciplina e outros aparatos sociológicos exercem a função que detém da forma como nós a conhecemos. Em analogia, Eça de Queiroz promove um debate sobre a verdade que está engendrada nos corredores da Igreja Católica, mas que não percebemos por conta deste poder ideológico que camufla sua crise.

Referências

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 4ª ed., Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.

QUEIRÓS, Eça de. O crime do Padre Amaro. 12ª ed., São Paulo: Ática, 1998.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.