Personagens femininas em obras de Eça de Queiroz (Parte 3)

03/06/2020

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Chegou a hora de concluir a reflexão sobre as personagens femininas em obras de Eça de Queiroz.

Se em "O crime do padre Amaro" a instituição religiosa é questionada, o sacramento do matrimônio é objeto de discussão em "O primo Basílio" (2002). Nesta obra, não apenas este caráter é posto em xeque, mas também os valores da sociedade lisboeta, a partir de uma protagonista romântica e desiludida com o casamento monótono. Trata-se de Luísa, casada com o engenheiro Jorge, com quem frequenta inúmeras festas e eventos sociais em Lisboa. Esta vida aparentemente movimentada, porém, é tediosa. Ela encontra-se no que hoje seria a classe média brasileira, que pensa ser rica porque tem condições de pagar uma empregada doméstica mensalista. Mas sente-se solitária e posa como uma mulher - fazendo referência a um tenebroso jargão da atualidade - bela, recatada e do lar.

Quando seu marido precisa viajar, a companhia do primo Basílio, recém-chegado do Brasil, faz Luísa vislumbrar uma aventura. Tivera um namoro com ele aos dezoito anos, iniciado em Sintra. Mas ninguém sabia do envolvimento. Por isso, Jorge não demonstrou desconfiança ao ler a notícia no jornal sobre a chegada do primo da esposa.

Com a viagem de Jorge, Basílio entra em cena. Educado e sempre transparecendo cordialidade, parece empenhado na arte da conquista. Inconsequente, Luísa deixa-se envolver. Tornam-se amantes, porque é a quebra do juramento ao altar que expõe a fragilidade das condutas cordatas. Eles encontram-se às escondidas. Em meio às promessas de Basílio, ela parece cega ao caráter irresponsável, egocêntrico e cínico do primo. Não haveria a história de "O primo Basílio" se não houvesse a traição de Luísa. E não haveria o caráter auto-protetivo de Luísa se não existisse Juliana, seu contraponto.

Logotipo da minissérie
Logotipo da minissérie

Juliana é a criada. Uma mulher infeliz, filha de engomadeira. Nunca se adequou à própria condição servil, alimentando um ressentimento por quem paga seu salário. No trecho segue uma passagem do desgosto e o inconformismo pela própria história.

A campainha retiniu violentamente.

- Fora, besta! - rosnou Juliana, muito tranqüila.

Mas a voz irritada de Luísa chamou debaixo:

- Juliana! - Que nem uma pessoa pode tomar a sustância sossegada! Raio de casa! Irra!

- Juliana! - gritou Luísa.

A cozinheira voltou-se, já assustada:

- A senhora zanga-se, Sra. Juliana.

- Que a leve o diabo! (QUEIROZ, 2002, p. 56).

O sonho de Juliana é ser dona de algum negócio, ter condições de ascendência social. Soma-se à sua ambição esta espécie de inveja que sente por Luísa, potencializando o caráter mesquinho de tirar proveito da descoberta de que a patroa mantém um caso com o primo. Sentindo-se humilhada por viver num quartinho insalubre e condições precárias, é ainda mais instigada a seguir com seus planos de conquistar algo para si com o suporte dos conselhos de tia Vitória, descrita como "inculcadeira", ou seja, "1. Que ou aquela que fornece denúncias, informações ou revelações; intrigante, mexeriqueira. 2. Que ou aquela que serve de intermediária em relações amorosas; alcoviteira" (MICHAELIS, 2018).

O caráter de Luísa só se manifesta quando sua criada, Juliana, descobre a traição. Para esconder o envolvimento com Basílio, Luísa seria capaz de fugir com o primo, mas ele decide ir sozinho para Paris, coroando o clímax de seu mau-caratismo. Cabe a Luísa ceder às pressões da empregada, promovendo uma troca de papéis. É o que em linguagem atual, em dramaturgia, considera-se um plot twist. Neste ponto, Eça de Queiroz parece vingar-se da infidelidade. É um tapa de luva às convenções. Demonstra que a vida não é romântica, mas realista. Traz à luz a decadência moral de Luísa e demonstra que o oprimido também sabe ser opressor quando tem oportunidade.

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

A obra, adaptada por Gilberto Braga como minissérie para a Rede Globo em 1988 e dirigido como longa-metragem em 2007 por Daniel Filho, conclui-se com a morte de Juliana, a doença de Luísa e seus delírios, e também a descoberta da traição por Jorge a partir de uma carta de Basílio. A burguesia paga seu preço e o autor dá espaço às mulheres demonstrando o contraditório de seus comportamento.

A visão crua dos sentimentos e aspirações das personagens femininas, tanto em "O primo Basílio" quanto em "Os Maias" e "O crime do padre Amaro", refletem a inquietação do autor português sobre a utopia - com licença novamente a outro tenebroso jargão da atualidade - da família tradicional e das instituições que se utilizam de seus mecanismos de poder para governar nossas vidas (FOUCAULT, 1984).

Referências

INCULCADEIRA. Dicionário Michaelis. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/busca?id=NyGK8> Acesso em 08 nov. 2018.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 4ª ed., Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.

QUEIRÓS, Eça de. O crime do Padre Amaro. 12ª ed., São Paulo: Ática, 1998.

______. O primo Basílio. Cópia digital. 2002.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.