Representatividade na dramaturgia

13/05/2020

Fonte: Reprodução
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Neste final de semana, recebi um telefonema da professora que foi minha orientadora do Mestrado. Ela trabalha com questões voltadas a sociologia, políticas públicas e justiça social. Na ligação, ela pediu um favor. Queria que eu revisasse um artigo que está encaminhando para submissão numa revista acadêmica. O tema é caro para ela: diz respeito à dificuldade do aluno cotista em permanecer na universidade. Um texto com dados quantitativos, baseado em estatísticas, pesquisa de campo e outros estudos. Não é apenas ela quem trabalha com este foco no grupo de pesquisa em que eu estive inserido. Durante o meu Mestrado, conversei com colegas engajados nesta questão social.

Enquanto eu revisava o artigo, observei a data no meu computador: 13 de maio. Justamente, o dia em que a Lei Áurea foi sancionada. Já são 132 anos na busca por dignidade e cidadania, palavras que são muitas pronunciadas sem nenhum tipo de respeito pelo seu significado. E em tempos difíceis como os que vivemos, pensei em escrever um pouquinho sobre a representação da negritude na dramaturgia.

Sabe o blackface? Aquela prática teatral abominável onde atores brancos se cobriam com carvão para representar personagens negros? Esses dias eu estava assistindo "O cantor de jazz" (1927) e embora reconheça a importância da película na história do cinema, não foi difícil me sentir incomodado com aquele retrato. Como naquela semana eu assistira "A hora do show" (2000), dirigido pelo Spike Lee, eu trazia comigo um sentimento mais fresco em relação ao blackface. Ambos os filmes são polêmicos e dizem muito da questão racial norte-americana. Não é apenas pintar o rosto, mas sim a ridicularização de toda uma cultura, impedida de se utilizar da arte como forma de expressão. Logicamente que muitas das referências apresentadas no filme de Spike Lee não foram por mim absorvidas, pois não posso falar deste lugar de pertença. Mas observar as várias situações que já foram (e ainda são) normatizadas na cultura/indústria da televisão e do cinema a partir da cena final desta obra é no mínimo indignante e nos faz sentir vergonha de sermos merecedores da definição "humanos".

Na teledramaturgia brasileira, o blackface também deu as caras. Para citar um exemplo, na novela "A cabana do pai Tomás" (1969) da Rede Globo, o ator Sérgio Cardoso estava escalado para viver o protagonista negro. Na época, a sugestão da classe artística era a escalação de Milton Gonçalves. Não bastava o blackface, a trama abordava a questão escravocrata do Sul dos Estados Unidos. Nesta época, havia forte descontextualização entre o que era produzido no Brasil enquanto teledramaturgia e a realidade cotidiana do telespectador (não que hoje seja muuuuito diferente).

Obras que retrataram a questão da escravidão no Brasil também foram produzidas posteriormente, nas diversas emissoras, como as novelas "Sinhá Moça" (Globo - 1986 e 2006), "Sangue do meu sangue" (SBT - 1995) e "A escrava Isaura" (Record - 2004). Mas não é difícil observar que nestas obras, a trama principal dizia respeito a conflitos da aristocracia. Mesmo em "Sinhá Moça", há uma necessidade de que a libertação dos negros seja efetuada a partir de um movimento de lideranças brancas, legitimando um lugar de domínio. Nem mesmo a minissérie "Abolição" (Globo - 1988), reprisada no ano passado pelo Canal Viva, escapou deste vício. Lógico que temos certas exceções, como "Xica da Silva" (Manchete - 1996), mas mesmo estas devem ser olhadas de maneira crítica. No caso da trama protagonizada por Taís Araújo, não se pode esquecer de que se tratava de uma história baseada em uma personagem verídica e que o contexto sociohistórico impelia um comportamento de repressora dos seus iguais.

Saindo desta questão e pensando na escalação dos atores negros, há sempre aquela lei maior de que negro é escalado ou para ser escravo ou para ser empregado. Felizmente, estamos dando alguns passos (ainda minúsculos) para corrigir esta representação. O Brasil é um país elitista e que não se conhece. E se conhece dados, distorce. É tipo assistir "Segundo sol", uma novela que se passa na Bahia, onde uma em cada cinco pessoas se declara preta, e aceitar com normalidade um cantor de axé branco. Existe? Existe! Mas que foi uma oportunidade perdida de colocar um astro negro da música como protagonista de novela, foi.

Analisar estas características não é mimimi. É ter ciência de que novela é um produto que vende e precisa continuar representando uma idealização. E isto é incorporado de uma maneira muito profunda, de forma que seja muito difícil uma desconstrução. É tipo quando a gente lê um livro e ao invés de imaginar os personagens pretos, imagina-os brancos. "Que de vez em quando surja uma "Lado a lado" (2012) ou uma "Bom sucesso" (2019), tudo bem. Mas nem sempre, senão o público mais tradicional foge.". Este pensamento que é uma falácia! Por isto na história das novelas foi importante inserir em "A próxima vítima" (1995) uma família negra de classe média. Eu era criança na época, com cerca de sete anos, mas lembro muito bem de pessoas próximas a mim dizendo que aquilo era invenção da Globo e que não existia.

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A leitura que muitos fazem é que mudar de uma hora pra outra pode dar voz a quem se quer manter preso. Uma leitura cruel. Tipo quando se produz um especial de natal com uma família negra. Sempre tem alguém pra reclamar. Qual é o problema de ver numa alegoria universal como Papai Noel um homem negro? Por quê isto é considerado violento a quem ocupa a tanto tempo o papel de repressor?

Um dos principais papéis da arte: dar voz. Uma liberdade assinada num papel não significa acesso a direitos e possibilidade de representatividade. Significa o início de uma longa caminhada para que o mundo seja mais justo. Espero que as pessoas comecem a abrir os olhos para isto. A vencedora do Big Brother Brasil deste ano, Thelma, traduz por si só esse meu sentimento. Vê-la vencer o principal reality show do país em meio ao caos de uma situação política desfavorável a minorias (não no sentido de quantidade, mas sim de possibilidades de acesso) é um conforto e uma inspiração.

Acho que consegui colocar um pouco do que senti lendo o texto que a minha orientadora me encaminhou para corrigir. Precisei usar este espaço para pensar um pouco sobre a questão e dizer que admiro autores que colocam atores negros com maior participação na teledramaturgia nacional. A arte, em todas as suas possibilidades, deve ser aberta. Que a gente tenha orgulho do cinema que produzimos, com expoentes como "Cidade de Deus" (2002) mostrando que a gente é f%$#! Que a gente revisite o passado com novas formas de contar a história através das nossas novelas. Que a gente aborde a realidade da sociedade na nossa teledramaturgia e compreenda que a representatividade deve ser exercitada todos os dias. Que o dia 13 de maio não seja apenas uma data, mas um símbolo de reconhecimento de que, mesmo que muitos queiram negar a História, ela jamais deixará de escancarar suas verdades. E que enquanto não houver equidade, não haverá um mundo melhor.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.