S01E03 - A clockwork orange

23/05/2020

No Brasil, a juventude das décadas de 1960 e 1970 ganhou visibilidade diante de mobilizações estudantis na luta contra o regime da Ditadura Civil-Militar e do questionamento acerca dos padrões de conduta então vigentes. Contemporâneo a esta representação, um dos filmes mais controversos de Stanley Kubrick. Se anos mais tarde Stephen King reclamaria da escalação de Jack Nicholson para "The shine", "A clockwork Orange" (1971) também foi alvo de pitacos do autor do livro que deu origem ao filme. A película decepcionou Anthony Burgess, que resumiu a adaptação de sua distopia como glorificação da violência e do sexo. Vamos analisar um pouco mais sobre "Laranja mecânica", título em português da atração do nosso #SábadoClássico.

Regimes totalitários e a questão da livre manifestação de pensamentos está representada em "A clockwork Orange", cuja ambientação remete à uma Inglaterra refém de gangues juvenis. Não parece ser a intenção da obra observar a juventude como público-alvo a quem o Estado deveria investir, pois o que está em jogo é o modo como o sistema político incorpora suas repressões, reduzindo suas ações contra a violência urbana com violência institucionalizada. Soma-se a ideia de que o ser humano é produto unicamente do comportamento. O pensar não interessa. Seríamos, portanto, produtos do meio e capazes de sermos condicionados conforme o desejo do Estado. Esta crítica é ácida como uma laranja, pois o ser humano não tem escolha além de viver mecanicamente, devendo comportar-se conforme o que se define como certo numa dualidade bem versus mal.

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

O protagonista da obra é Alex de Large (Malcolm McDowell), um jovem que tem uma cobra de estimação. Seu prazer está ligado à sexualidade exacerbada, com direito a muita pornografia. Mas ele também curte música clássica e a companhia junto a seu bando, os "Droogs". Utilizando-se de violência extrema, este grupo invade casas, tortura, sente-se um id por completo. A única forma de controle desta pulsão seria a mecanização do comportamento? Após a prisão de Alex, o filme aborda o tratamento experimental ao qual o jovem é submetido. Como consequências, o protagonista fica desprovido de crítica, pois sua atuação no meio diz respeito apenas aos estímulos que recebe. Ainda que traga consigo o pensamento, não pode refletir sobre os atos. A náusea toma conta de seu ser diante da violência, com a anulação de seus prazeres.

Num paralelo com a atualidade, observamos programas de televisão sensacionalistas que reduzem o ser humano a uma laranja mecânica. Governos buscam a diminuição da violência sem trabalhar questões sociais mínimas. Não se trata de intervir nas desigualdades ou na constituição psíquica do ser humano (estando no filme a perversidade em evidência). O que interessa a partir da leitura que a obra propõe é a crítica aos regimes que focam no sintoma e não no problema. Direitos podem ser podados quando não comungam com o governo. Já não estaríamos convivemos com esta visão do roteiro?

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

"A clockwork Orange", tem recepção favorável da crítica, avaliado em 8,3 no IMDb. Até hoje, cenas do filme podem ser facilmente identificadas na internet através de memes. Há inúmeras referências a este filme, como em "South Park" e "The Simpsons".

FICHA TÉCNICA

Título original: A clockwork Orange
Diretor: Stanley Kubrik
Gênero: Drama, ficção científica, policial
Duração: 136min.
Oscar 1972: Indicado nas categorias: Melhor roteiro adaptado, Edição, Diretor e Melhor filme.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.