S01E04 - Snow White and the seven dwarfs

30/05/2020

Falar sobre clássicos é andar por um terreno espinhoso. Quando se trata de uma animação que tem um papel fundamental na cultura, a situação fica ainda mais complicada. Por esta razão, a proposta de hoje é tecer algumas considerações sobre a animação que chegou a ser apelidada de "a loucura de Disney". Você pode concordar ou discordar, não importa. O que importa é colocar na mesa a discussão sobre esta produção, que demorou aproximadamente quatro anos para sair do papel e que apresentou inovações tecnológicas significativas. Era a abertura do campo para grandiosas animações que seguiram, entre elas "Fantasia" (1940) e "Pinocchio" (1940). Hoje é dia de "Snow White and the seven dwarfs" (1937) no #SábadoClássico!

O título do filme foi traduzido literalmente para o português: "Branca de Neve e os sete anões". Adaptada de um dos contos de tradição oral compilados pelos Irmãos Grimm no século XIX, sua narrativa é revestida de valores burgueses, representando arquétipos em sua forma mais simples e expressando processos psíquicos do inconsciente coletivo.

Fonte: Reprodução
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As adaptações de obras baseadas na cultura europeia costumavam enfatizar os valores morais daquela sociedade, direcionando esta visão de mundo ao público infanto-juvenil através da literatura. Tal abordagem, que destaca o ponto máximo do maniqueísmo ao apresentar o conflito entre a princesa boazinha e a bruxa má, remete à batalha pelo bem e pela justiça, constante na constituição do ser humano desde sempre. Ao ser transposta para o cinema, amplia o seu poder de disseminação.

Olhar com distanciamento para uma obra cinematográfica produzida em 1937 é uma experiência necessária. Logicamente, não se trata de problematizá-la de forma a desmerecê-la. No contexto de uma sociedade ocidental no Período Entreguerras, a fuga da realidade que o filme proporciona pode ser pensado como um contraponto a movimentos que se desenvolviam e ressonavam no decorrer do século XX, os quais demarcavam a figura da mulher como protagonista na luta por direitos.

Fonte: Google
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"Branca de Neve" apresenta a ideia de uma protagonista obcecada por limpeza e que sonha com um final feliz ao lado do Príncipe Encantado. Hoje, pode-se questionar este ideário, que marcou a formação de gerações e que se seguiu em outras animações, especialmente dos Estúdios Disney. Felizmente, tivemos nos últimos anos mudanças significativas em termos de construção de personagens femininas, como em "Wreack-it Ralph" (2012), com a particularidade de que não se tratava da protagonista, "Frozen" (2013), "Inside out" (2015) e "Moana" (2016).

Assistir um filme e simplesmente taxá-lo como datado é irresponsabilidade se quisermos adequá-lo ao momento histórico no qual estamos inseridos. Dizer que animações como "Snow White and the seven dwarfs" enfatizam uma posição de inferioridade à mulher parece complicado, pois se trata da algo naturalizado naquele contexto sócio-histórico e isto é fato. Mas hoje é possível olhar para esta obra de forma a permitir-se sonhar por um instante com um final feliz sem abrir mão da realidade e da consciência de que, embora o filme tenha um lugar na História do Cinema e que a nostalgia seja um sentimento genuinamente humano, esperar ser a Branca de Neve ou o Príncipe Encantado que em pleno século XXI é desmerecer as lutas e conquistas de muitas pessoas que almejavam a criticidade e mudança na sociedade.

"Snow White and the seven dwarfs", tem recepção favorável da crítica, avaliado em 7,6 no IMDb. São inúmeras as referências à obra, selecionada em 1989 para preservação no National Film Registry pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América por ser "culturalmente, historicamente e esteticamente importante".

FICHA TÉCNICA

Título original: Snow White and the seven dwarfs

Produção: Walt Disney

Gênero: Animação, família, fantasia

Duração: 83min.

Oscar: Prêmio Honorário da Academia (Uma estatueta e sete estatuetas em miniatura)

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.