S01E08 - The Little Prince

27/06/2020

Adaptação da obra de Antoine de Saint-Exupéry, "The Little Prince" (O Pequeno Príncipe - 1974) é um exercício de simbolismo para crianças e adultos. A literatura e o cinema são artes que namoram, mas nem por isso se casam com paixão. E quando se trata de uma obra universal, tomada inúmeras vezes a partir de referências, releituras e adaptações, uma produção como a dirigida por Stanley Donen se destaca. Por este motivo, é a atração de hoje do nosso #SábadoClássico!

Fonte: Reprodução
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Se em "Cantando na chuva" (Singin' in the rain - 1952), "Sete noivas para sete irmãos" (Seven brides for seven brothers - 1954) e "Cinderela em Paris (Funny face - 1957) há uma dedicação tanto das músicas quanto das coreografias na condução narrativa, em "The Little Prince" temos um pequeno problema de costura. Após sermos apresentados a uma criança de seis anos bastante criativa e que desenha uma jiboia digerindo um elefante, temos um primeiro número musical introduzindo a expectativa de que o filme poderá ser um significativo representante do gênero. Mas ela não se sustenta ao longo da projeção. E assim como os adultos representados no filme, o espectador também pode se fixar em busca por explicações racionais quando chega ao acidente: Quem é o garotinho que apareceu do nada? O que ele faz no deserto? É realidade ou um devaneio?

No entanto, se o espectador já estiver imerso na atmosfera, seja em razão da obra cinematográfica ou em razão da memória afetiva do personagem e do livro, nada mais importa. Não vai ser preciso fazer um raio-x para encontrar um elefante dentro de uma jiboia. A trajetória do Piloto (Richard Kiley) isolado no deserto do Saara que acorda e se depara com um garotinho, o Pequeno Príncipe (Steven Warner) do título, pedindo "Por favor, desenhe uma ovelha pra mim!" preenche todas as lacunas.

Com o lado adulto deixado em off, é possível embarcar na jornada e até mesmo se reconhecer na figura do Piloto, que já não é mais a criança que viveu as primeiras descobertas e frustrações. Endurecido pelo decorrer da vida e com responsabilidades de um mundo onde a imaginação parece supérflua, o Piloto aceita a presença daquela criança como um convite para se observar num espelho simbólico, onde há a possibilidade de deparar-se consigo mesmo para uma questão mais importante que surge a partir das reflexões advindas daquele encontro: "Onde foi que eu me perdi?".

Fonte: Reprodução
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No elenco, destaca-se Gene Wilder (1933-2016), que interpreta a Raposa. Trata-se de uma personagem importante para a moral da história e sem a qual não há a mensagem sobre a amizade que se constrói e se mantém a partir de algo que é subjetivo. Reconhecer a individualidade do outro e respeitá-la permite o convívio e fortalece as relações afetivas. Numa amizade, se um é cativado pelo outro, a amizade torna-se recíproca e verdadeira. Uma lição valorosa que o filme retrata com fidelidade ao livro.

Steven Warner, por sua vez, interpreta o protagonista de uma forma visivelmente limitada em alguns momentos. Assistir sua composição com olhos de criança permite relevar qualquer falha. Já como adulto, isso não é tão simples. Percebe-se que uma direção mais cuidadosa teria impedido sequências pouco críveis, como na cena da cobra. Era para ser dramático, mas não se sustenta. E isto se aplica ao Piloto, que se esforça para dar alguma verdade àquele momento. Ironicamente, talvez seja este o pulo do gato: abrir mão de uma coesão e uma coerência em nome da atração. Se foi intencional ou não, não importa. Afinal, estamos falando de "O Pequeno Príncipe" e neste caso, o essencial é invisível aos olhos!

"The Little Prince" é avaliado em 6,6 no IMDb. Considerando-se as várias obras cinematográficas que tomam como base a obra de Saint-Exupéry, destaca-se a animação homônima de 2015, dirigida por Mark Osborne, e que foge da narrativa convencional do livro.

FICHA TÉCNICA

Título original: The Little Prince
Ano: 1974
Direção: Stanley Donen
Roteiro: Alan Jay Lerner
Gênero: Família, fantasia, ficção científica, musical
Duração: 88min.
Elenco: Richard Kiley, Steven Warner, Gene Wilder, Bob Fosse, entre outros. 

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.