Somente por amor… #OClone #OCloneNoVIVA

17/08/2020

Fonte: Reprodução
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Conhecida por escrever suas novelas sozinha e em pé na bancada da cozinha, Glória Perez trouxe em 2001 uma história com elementos cuja abordagem era praticamente inédita na teledramaturgia brasileira. Unir a cultura muçulmana, dependência química e clonagem humana foi uma ousadia. Temas que requerem sensibilidade para atingir o grande público sem que torná-los didáticos ou cansativos. O cruzamento do antigo com o moderno, expediente já utilizado em "Explode coração" (1995), atinge em "O clone" (2001) um significado imenso. Não apenas porque a novela entrou para a história, conquistando reconhecimento e inúmeros prêmios nacionais e internacionais, mas também porque se tornou um dos melhores exemplos de carpintaria folhetinesca.

Enquanto o mundo via nos noticiários a Ovelha Dolly tornando-se uma celebridade, a autora Gloria Perez questionava-se sobre as questões éticas que envolvem a clonagem. Afinal, quem é o clone? Quem são seus familiares? Qual é a sua real identidade? Quais os direitos na esfera jurídica? Como é ser comparado constantemente com a sua matriz? Como é sentir-se uma cópia de outra pessoa? E além destas, inúmeros outros questionamentos poderiam ser desencadeados através da premissa da novela. Apenas isto seria suficiente para levantar as problematizações. Mas Glória Perez foi além e trouxe a cultura muçulmana como pano de fundo para contar sua história. Afinal, trata-se de um oposto à cultura onde nos inserimos. Enquanto o Ocidente comunga com Nietzsche a ideia de que "Deus está morto", a cultura árabe tem em seus preceitos as leis que regem suas vidas de uma maneira bastante enraizada.

Fomentando este diálogo, a autora desenhou sua trama abordando de uma maneira única o uso de substâncias psicoativas. A partir da personagem Mel (Débora Falabella) e Lobato (Osmar Prado), tivemos dois exemplos de relação com o mundo das drogas. Mel é a jovem que tem tudo o que o dinheiro pode comprar, mas está vazia por dentro. Ela não suporta as constantes brigas dentro de casa e sente-se diferente quando diante dos amigos, sem saber direito como se comportar. Já Lobato é o alcoólatra que as pessoas não percebem como necessitando de ajuda. No decorrer da novela, ele está em terapia para compreender melhor a si mesmo e recuperar-se enquanto alguém que perdeu muito em razão do vício que as pessoas comumente não percebem também ser uma doença.

A temática das drogas foi abordada com muita pesquisa, procurando romper com o estereótipo de que quem usa substância psicoativa é o pobre responsável por crimes. Ou seja, pode também ser o rico na busca do prazer. E esta constatação choca porque não se espera que uma jovem criada com todas as regalias entre para este mundo. Nenhuma classe social está livre dos problemas causados pelo vício e a autora soube trabalhar este ponto na história em razão de mostrar como era a Mel de antes e a Mel de depois. Se Mel fosse apresentada logo de cara como usuária de drogas, corria-se o risco de rejeição. Não foi o que aconteceu e assim a novela trouxe muita contribuição para a discussão da problemática.

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Em termos de folhetim, o romance impossível de Lucas (Murilo Benício) e Jade (Giovanna Antonelli) deu voltas e mais voltas durante os mais de duzentos capítulos da obra. Demorou dois terços da novela para que o clone Léo (Murilo Benício) entrasse na disputa pelo amor de Jade. No entanto, as várias idas e vindas do casal sempre tiveram empecilhos, entre eles os problemas que ele enfrentava com sua filha Mel e as diferenças culturais que abriam um abismo entre eles.

Na verdade, o romance poderia ter caído na maior chatice se no decorrer da novela não tivéssemos personagens carismáticos para sustentar a história. O núcleo muçulmano sempre se mostrou um acerto, pois eram tipos humanos, com os quais costumamos nos identificar. Tem o sábio (Tio Ali = Stênio Garcia), a cuidadora (Zoraide = Jandira Martini), a tia que só pensa em se casar (Nazira = Eliane Giardini), entre outros. Todos estes tipos muito bem interpretados e com função relevante no enredo.

Outro ponto da novela fundamental para o sucesso foi o núcleo do Bar da Dona Jura (Solange Couto), por onde passaram milhões de personalidades. Apesar do exagero, foi importante para manter o imenso número de capítulos e fundamental para dar conta da obra no momento em que a história corria contemporaneamente à Copa do Mundo de 2002.

Considerando outros personagens da história, é impossível negar que a discussão ética sobre o feito de Albieri (Juca de Oliveira) trouxe um olhar para a ciência que se faz nos laboratórios do mundo e que nós não observamos por considerar o conhecimento científico muitas vezes distante de nós. Na reta final, a personagem Edna (Nívea Maria), cegamente apaixonada por Albieri no início da novela, mostra mais camadas e uma complexidade necessária. É como se personificasse o público que num primeiro momento idealiza para depois questionar até que ponto as atitudes das pessoas são plausíveis quando a vaidade está em jogo.

É merecido destacar ainda a interpretação de Cissa Guimarães como Clarice, mãe de Nando (Thiago Fragoso). A atriz deixou o lado repórter do extinto "Vídeo Show" e deu à sua personagem uma carga dramática que provavelmente causou identificação com várias mães que sofrem com a dependência química dos filhos. Uma atriz que merecia ter tido mais papéis assim para nos brindar com seu talento.

Com um sabor de conto de fadas e ficção científica, "O clone" se despede do Canal Viva na próxima sexta-feira. O sucesso nas redes sociais mostrou que a novela consegue, quase vinte anos depois de sua exibição original, provocar discussões e envolvimento com o público. Uma obra-prima da teledramaturgia nacional que não se restringe aos bordões. Traz uma qualidade ímpar de direção, roteiro e trilha sonora que não é brinquedo não!

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.