Um repúdio à #Saramandaia

24/06/2013

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

"Saramandaia" traz novamente o universo do realismo fantástico para a telinha. O autor Ricardo Linhares se inspira na obra de Dias Gomes para mostrar através de alegorias os preconceitos da sociedade.

Vamos começar com Dona Redonda (Vera Holtz). A personagem explode de tanto comer. Isso significa que todas as pessoas que têm distúrbios alimentares relacionadas a um exacerbado apetite podem explodir. Por que não mostrar a Dona Redonda como alguém que supera suas limitações, que consegue conviver com as dificuldades e que luta para ser magérrima e linda como as modelos de capas de revista? Isso é uma palhaçada! Ninguém explode de tanto comer, isso é viagem! Mais que isso, é preconceito com todas as pessoas obesas, que precisam urgentemente fazer uma dieta para não desenvolver problemas de saúde. Afinal de contas, hipertensão e diabetes são doenças silenciosas e que, se não acompanhadas, geram ainda mais gastos do Estado, que dá à nossa população saúde de qualidade. DEVE-SE FAZER DIETA!

Outro personagem que poderá atingir uma parcela da população é Zico Rosado (José Mayer), que expele formigas pelo nariz. Isso é uma afronta! Muitos casos de bullying podem acontecer em nossas escolas quando um aluno que não limpou o nariz direito chega em aula e é apontado pelos colegas, que dirão que ele está "soltando formigas pelo nariz". Isso desenvolverá, a médio e longo prazo, patologias como depressão e síndrome do pânico, favorecendo apenas uma indústria farmacêutica extremamente capitalista que desenvolve medicações e legitimando um discurso que sem anti-depressivo, a vida é triste e todos devemos ser alegres. Mas como ser alegres se rir da cara do colega é bullying? RIR DO AMIGUINHO É BULLYING!

O Professor Aristóbulo Camargo (Gabriel Braga Nunes) vira lobisomem durante a noite. Dizem que isso não existe, mas existe sim! Quantas vezes você precisou cruzar por um estranho na rua, na calada da noite? Todas as pessoas esquisitas que andam pelas ruas e amedrontam somente com sua presença, na novela, não passam de uma representação de possibilidade de ataque. É necessário fugir de todos que o ameacem, afinal de contas, nossa sociedade nos dividiu entre bons e maus no decorrer da história. Não se sabe quem é quem. Se somos bons, logo um estranho andando de preto na rua deve ser mal. Isso reforça ainda mais o preconceito a tribos que se vestem de preto e ouvem músicas mais pesadas, como determinados jovens chamados metaleiros, que por sua vez são condenados (tanto os fãs como os artistas) e estereotipados diversas vezes erroneamente como adictos. Isso significa que não podemos confiar em quem foge do padrão. NUNCA FALE COM ESTRANHOS!

Dois personagens que também prometem reforçar os preconceitos em nossa sociedade são Seu Tibério (Tarcísio Meira) e Seu Cazuza (Marcos Palmeira). Enquanto o primeiro cria raízes em sua cidade, o outro põe o coração na boca quando está nervoso. Aqui, a analogia é a seguinte: se você nasceu pobre, não pode ascender socialmente. Se você nasceu rico, mesmo perdendo tudo, sempre terá regalias. As raízes representam condições financeiras e ideológicas. Quem nasce em Bole-Bole é condenado a morrer em Bole-Bole, pois suas raízes aqui estão e aqui ficarão. Da mesma forma, o coração saindo pela boca de Seu Cazuza se relaciona à primeira representação: a ideologia. Afinal, essa música é do Cazuza e sempre vai ser, mas o coração só sairá pela boca se ouvi-lo cantar "Codinome beija-flor", mas isso me lembra "O dono do mundo", que é outro departamento. UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA!

Um dos personagens mais emblemáticos é João Gibão (Sérgio Guizé), que se apresenta corcunda por esconder um par de asas. O maior preconceito não está no fato de atingir pessoas que têm problemas de postura ou que nascem com algum defeito, como Daniela Cicarelli que dizem que tem seis dedos e nunca doou um para o ex-presidente Lula. O maior equívoco está mesmo na escalação da aposta Sérgio Guizé, ofendendo visualmente o ator Juca de Oliveira, que tem cara de Geppetto desde a primeira versão da novela. Além disso, reforça a ideia que protagonista deve ser bonito, indo contra o discurso épico do Seu Madruga (Ramón Valdez) de que protagonistas devem ser feios e vilões bonitos. PAVÃO MISTERIOSO DEVE SER PÁSSARO FORMOSO!

Marcina (Chandelly Braz) é uma personagem cuja característica é pegar fogo, provocando incêndios e queimaduras. Já Vitória (Lília Cabral) se derrete por amor. Elas poderiam viver um romance, pois o fogo de uma derreteria a outra e ambas teriam múltiplos prazeres enquanto gases dispersos são na atmosfera. Gases estes que não seriam nobres, mas sim invisíveis. Porém, como a novela aborda a questão do preconceito, do estereótipo e busca atingir um reduto de pessoas que só querem o direito de ser quem são sem incomodar ninguém, ambas as personagens representam o fogo dissipado por p* que querem engravidar de jogadores de futebol pra depois postar no facebook fotos de um bebê que já vai nascer moicano. P* É TUDO P*!

A diva Fernanda Montenegro vai fazer um papel que não existia na versão original. Trata-se de Dona Candinha, que cria galinhas invisíveis. Se não estão visíveis, tudo não passa do fruto da imaginação de uma mulher idosa que desenvolveu caduquice. Uso aqui esse termo pejorativo propositadamente, tal qual todos da sociedade que não enxergam galinhas, mas enxergam nas dificuldades da memória ao atingir a chamada melhor idade um distúrbio que impede a convivência em sociedade e obriga a internação em instituições asilares. Se você não é capaz de produzir em nossa sociedade, deve ser afastado dela. Para esta finalidade, foram criadas instituições para acolhimentos para pessoas que como eu e como você, antes de morrer, serão vistas como estorvo. Um estorvo ainda maior se ver galinhas. ELA TÁ VELHA, TÁ CADUCA!

No fim desse texto, só posso dizer uma coisa: estou brincando! It's sarcasm, Sheldon! A novela tem tudo para ser sucesso, a crítica é pertinente e um tapa de luva na cara de muita gente. Dias Gomes foi inteligentíssimo ao compor personagens memoráveis que representam nossa sociedade hipócrita que só vê a exceção a regra e generaliza tudo, sendo incapaz de discernir ficção de realidade (com a ressalva de que ficção merece ser coerente ainda que seja ficção), se acomodando e reforçando preconceitos que são legitimados com discursos vazios. Desejo aos envolvidos nesse trabalho um grande sucesso!