Vem meu amor, vem com calor! #Tieta

15/06/2020

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Desde que o Globoplay anunciou a volta de várias novelas em seu catálogo, o público ficou em êxtase. A cada duas semanas, a oportunidade de assistir a uma trama clássica produzida pela Rede Globo. Começou com "A favorita" (2008), cujo post você pode acessar entre os links abaixo. Já a segunda novela a entrar na plataforma foi nada mais nada menos que Tieta (1989), sucesso regionalista de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares baseada na obra de Jorge Amado.

A novela conta a história de Tieta (Betty Faria) que após ser expulsa de Santana do Agreste por seu comportamento não condizente com os valores da cidade, retorna disposta a se vingar. Em entrevista ao livro "Autores - Histórias da teledramaturgia" (2008), Ricardo Linhares narra que os autores dividiam a escrita da novela, ficando cada um responsável por dois capítulos da semana, após as reuniões que realizavam no apart-hotel de Aguinaldo Silva, sempre responsável pela elaboração das escaletas.

Já no livro "A seguir, cenas do próximo capítulo" (2009), Aguinaldo Silva conta que Jorge Amado não criou nenhuma polêmica em torno das mudanças que foram necessárias para adaptar o romance, cuja trama renderia no máximo trinta capítulos se não houvesse a inserção de personagens comungando daquele universo. Tanto que, ao término da novela, o escritor baiano escreveu de próprio punho uma carta a Aguinaldo, reconhecendo que as liberdades tomadas eram necessárias para o desenvolvimento de uma novela.

Capa da trilha sonora oficial
Capa da trilha sonora oficial

Boni (2011) lembra que os direitos autorais para televisão da obra de Jorge Amado foram adquiridos pela atriz Betty Faria, que viveu a personagem-título. A produção da trama aconteceu após o veto a "Barriga de aluguel", que seria a substituta de "O salvador da pátria". E num momento em que o país respirava os primeiros momentos pós-Constituição Cidadã de 1988, a obra ganhou uma atmosfera de busca por identidade genuinamente brasileira, centrando a narrativa numa cidade do interior do Nordeste como microcosmo dos costumes retrógrados ainda presentes na hipocrisia de personagens como Perpétua (Joana Fomm), Cinira (Rosane Gofman) e Amorzinho (Lília Cabral), passando pela vista grossa da instituição religiosa representada pelo Padre Mariano (Cláudio Correia e Castro). Também houve ênfase no coronelismo do Coronel Artur da Tapitanga (Ary Fontoura), repudiando chegada da luz elétrica e do asfalto no interior.

Sobre a abertura, vale destacar que, em 1999, Hans Donner foi a atração no programa "Intervalo", da TVE. Na oportunidade, o designer contou um pouco sobre a vinheta. Ele destacou o processo da transformação dos elementos da natureza, como árvores, folhas e frutos, no corpo feminino. Foi assim que Isadora Ribeiro ficou eternizada diante das paisagens de Mangue Seco. Na composição desta obra, é preciso dar crédito ao auxílio da computação gráfica de José Dias. Para realizá-la, computadores teriam ficado 14 dias efetuando 15 ou 16 milhões de cálculos matemáticos por segundo. Trava-se de imagens cortadas em 486 linhas, fazendo de cada imagem um fotograma, sendo 30 fotogramas por segundo. Para o final da década 1980, um trabalho cuja relevância deve ser reconhecida. Aliás, para reconhecer a abertura, também é válido ouvir as primeiras notas da canção de Luís Caldas.

Em 1996, a obra literária foi adaptada como longa-metragem. "Tieta do Agreste" foi dirigido por Cacá Diegues. Logicamente que os personagens da novela já fazem parte do imaginário popular e é difícil imaginar outros atores interpretando Tieta e Perpétua que não Betty Faria e Joana Fomm. Mas Sônia Braga e Marília Pêra em nenhum momento comprometem. Pelo contrário, buscaram uma interpretação própria e fazem do filme uma atração bastante agradável.

Em realidade, um só texto é pouco para o emaranhado de personagens inesquecíveis da novela. E olha que eu nem falei da Mulher de Branco e da trilha sonora repleta de sucessos que até hoje remetem à trama!

É lógico que aos olhos de hoje, há a abordagem de questões caras e que devem ser problematizadas de maneira séria e responsável, como machismo, pedofilia, violência doméstica e alcoolismo. No entanto, devemos considerar que se tratava de uma realidade onde era escancarada uma tolerância e uma camuflagem que, felizmente, não cabe na atualidade. Afinal, "a telenovela, ao penetrar o cotidiano do telespectador, estabelece relações estreitas e contínuas com seu público, pois as narrativas são construídas a partir do espaço em que os indivíduos produzem sua história, seu cotidiano." (FIGUEIREDO, 2003, p. 67).

E atenção ao spoiler: na cena final, Santana do Agreste é engolida pela areia das dunas. Uma metáfora à degradação do meio ambiente decorrente da busca desenfreada pelo progresso tão aguardado pelo personagem Ascânio (Reginaldo Faria).

Referências

DONNER, H. Abertura da novela "Tieta": bastidores do making-off. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nvaOx5JAupM> Acesso em: 13 jun. 2020.

FIGUEIREDO, A. A. C. Teledramaturgia brasileira: arte ou espetáculo? São Paulo: Paulus, 2003.

LOPES, C.. BERNARDO, A. A seguir, cenas do próximo capítulo. São Paulo: Panda Books, 2009.

MEMÓRIA, G. Autores: Histórias da teledramaturgia, v. 1 e 2. São Paulo: Globo, 2008.

OLIVEIRA SOBRINHO, J. B. O livro do Boni. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2011.

Lucas Andrade é natural do interior do Rio Grande do Sul e reside atualmente em Santa Catarina. Escreve sobre televisão desde o Ensino Médio no #BlogCascudeando. Formado em Psicologia e com Mestrado em Educação, atua na área e está cursando Letras-Português. Ainda pretende ganhar o Nobel de Literatura e um Oscar.